O conflito militar entre EUA e Irão é uma «equação em que a parcelas são todas para somar e nenhuma para subtrair», vincou o presidente executivo da APAT, António Nabo Martins.
Ao
Jornal de Negócios, o presidente executivo da Associação dos Transitários de Portugal (APAT), António Nabo Martins, fez uma primeira análise aos impactos imediatos que se podem esperar, na ressaca do arranque do
conflito militar entre os EUA (apoiados por Israel) e o Irão. A duração desta guerra ditará a intensidade de um impacto global ao qual não poderemos escapar: o conflito escalou irreversivelmente e, mesmo que curta, a intervenção militar provocará graves danos na Economia e Comércio Internacional, aumentando custos de forma transversal.
«A partir de hoje sabemos que vamos ter um impacto direto, se calhar daqui a uma semana, deste aumento de preços», começou por declarar o presidente executivo da APAT, na sequência do contacto do Jornal de Negócios. «Todos aqueles que fazem contratos a partir de hoje já vão ser impactados por esse au mento de preço», alertou António Nabo Martins, vincando que vários armadores já «anunciaram aumentos entre os 2.000 e os 4.000 dólares para todos os contentores com origens e destinos impactados por este conflito bélico».
«Astros alinhados para aumentos muito consideráveis nos fretes»
Para o responsável, este conflito militar vem adensar, incomensuravelmente, a fragilidade e a precariedade de uma Economia global bastante fustigada por disrupções sucessivas, e ainda com guerras por resolver, como a que prossegue na Ucrânia. «Temos outra vez uns astros todos alinhados para termos aumentos muito consideráveis nos fretes», afirmou, lembrando que, ainda assim, os fretes vinham mantendo-se em valores comedidos e vários armadores estavam, finalmente, «a voltar ao Mar Vermelho», após o pico de tensão geopolítica de 2025.
Contudo, esse ténue equilíbrio volta a ser obliterado por um novo conflito militar com potencial para envolver outras nações, e, assim, desencadear ainda mais ondas de choque: as empresas podem esperar o aumento dos fretes, aos quais acresce a aplicação de taxas a contentores pela circulação em zonas de conflito, sendo ainda esperados «aumentos dos preços dos seguros, como é normal», garantiu. As rotas regulares serão alteradas, acrescentando «mais 15 ou 20 dias» aos transit times e provocando «escassez de equipamentos».
«Mais tempo e mais custos»: esta será o paradigma que a Economia enfrentará enquanto a guerra durar, o que «se vai repercutir tanto no fabrico como no produto acabado, ou seja, no consumidor final», avisou António Nabo Martins. «As indústrias vão demorar mais tempo a receber matérias-primas e a um custo maior. Vão pagar mais devido ao conflito e à taxa de risco que será aplicada, mas a situação pode agravar-se ainda mais se se verificar o aumento dos combustíveis como está a ser previsto porque aí o frete também poderá aumentar por essa via».
Guerrã no Irão: «Escassez» de gás e petróleo será uma realidade
No que concerne ao petróleo e ao gás, o responsável não tem dúvidas: «
vai haver escassez de petróleo no mundo» e este começará a «circular para onde se paga mais»; Portugal, cuja dependência da produção proveniente dos países do Golfo não é demasiado elevada, poderá não sentir, já, os efeitos mais deletérios deste conflito, mas, a médio prazo, não escapará. «Também vamos sofrer com essa escassez, que implicará também no custo da produção de energia», referiu. «Temos uma equação em que a parcelas são todas para somar e nenhuma para subtrair».
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