X




X

O Transitário e o Ano Novo Chinês: a pressão máxima e os efeitos em Portugal

19 Fev
Para os transitários, o período não se limita a uma perturbação sazonal, sendo um ciclo logístico completo que exige planeamento antecipado, gestão de risco e adaptação operacional constante.
A chegada do Ano Novo Chinês representa, todos os anos, um dos maiores testes de resiliência para as cadeias logísticas globais. Contudo, em 2026, o impacto revela-se particularmente complexo: à tradicional paragem produtiva na China somam-se volatilidade geopolítica, reconfiguração de rotas marítimas e pressão contínua sobre custos e capacidade.

Para os transitários — em especial na Portugal e no espaço europeu — o período não se limita a uma perturbação sazonal. Longe disso. Trata-se, sim,  de um ciclo logístico completo (pré-feriado, shutdown e pós-retoma) que exige planeamento antecipado, gestão de risco e adaptação operacional constante. Um desafio total que requer estratégia afinada e planeamento à prova de bala.

Pressão total: pico de procura e compressão de capacidade

Em destaque no período pré-Ano Novo Chinês está corrida ao embarque e saturação de infraestruturas: nas semanas que antecedem o feriado, verifica-se um aumento abrupto da procura por transporte marítimo e aéreo: os exportadores asiáticos aceleram produção e expedição, os importadores europeus antecipam encomendas para cobrir a paragem e os transitários competem por espaço limitado em navios e aviões.
 
Quais são, então, os principais efeitos operacionais? Desde o overbooking sistemático, roll-overs frequentes, passando pela escassez de contentores vazios, pela subida acelerada das tarifas spot e pelo aumento dos congestionamentos portuários e aeroportuários. Um leque de contratempos sobejamente conhecido mas que, em 2026, está a ser amplificado pelos desvios prolongados de rotas Ásia-Europa, pela redução de previsibilidade nos transit times e pela procura antecipada acima da média histórica.

Shutdown chinês: quebra súbita da produção e da fluidez logística

Durante o Ano Novo Chinês, a interrupção não se limita às fábricas. Os impactos directos repercutem-se imediatamente no encerramento de unidades industriais, no corte de operações portuárias e de terminais, na escassez de transporte rodoviário interno e na suspensão de consolidações LCL. Em termos indiretos, salta à vista a dificuldade em obter documentação, atrasos vários na emissão de BL e certificados e grãos na engrenagem das cadeias de fornecedores secundários.
 
Na prática, o impacto operacional prolonga-se por 4 a 6 semanas: uma janela temporal árdua e frenética que, em 2026, será acompanhada por um contexto pleno de dualidade: no curto prazo, pautado por congestionamentos e pressões tarifárias, e, a médio prazo, por um (mais que provável) excesso de capacidade e descida de ratesPara os transitários, esta fase exige uma leitura atenta e constante do mercado; além disso, torna-se imperativo ter uma capacidade de renegociação rápida.

Fatores agravantes em 2026: um contexto mais complexo

A reconfiguração das rotas marítimas têm resultado em desvios prolongados em em rotas estratégicas Ásia-Europa, aumentando as distâncias médias de transporte, os custos de bunker e operação e fomentando a Incerteza nos transit times. A rota via Cabo da Boa Esperança, por exemplo, prolonga viagens e reduz a rotação de equipamentos, comprimindo capacidade disponível. É pois expectável uma volatilidade nos fretes spot e a introdução de sobretaxas, dificultando a vida aos transitárias na hora de garantir estabilidade tarifária aos clientes.

Impacto específico no mercado português e ibérico

O posicionamento de Portugal nas cadeias globais acentua a sensibilidade face a este período, uma vez que é real a forte dependência de importações industriais e de consumo da Ásia, a elevada utilização de groupage e consolidação e afigura-se óbvia a menor escala negocial face a grandes mercados europeus. Infraestruturas como o Porto de Sines e hubs ibéricos funcionam como pontos críticos de redistribuição, sendo particularmente afetados por oscilações de fluxo e atrasos.

Perante todo este contexto, é chegada a hora do transitário fazer o que melhor o diferencia de todos os elos da cadeia: assumir o papel de gestor da contingência logística, chamando a si também a tarefa de interligar, constantemente, clientes e parceiros, e sendo o consultor estratégico de supply chain, evoluindo para orquestrador multimodal a uma escala global e encarando o fenómeno logístico de forma panorâmica. Para tal, terá igualmente de gerir expectativas e coordenar dados e informação crítica.
 

Ajude-nos a crescer